Ao amanhecer, centenas de pesquisadores entram na selva para fazer o levantamento das riquezas da Amazônia

   Foi dessa forma que, em 1976, a revista Manchete descreveu o trabalho de geólogos, engenheiros florestais e biólogos envolvidos no Projeto RADAMBRASIL, um dos maiores esforços de mapeamento territorial já realizados no Brasil, em plena floresta amazônica.

Foto de geólogos na Amazônia - Revista Manchete. Ano 1976. Edição 1279.

          O projeto iniciou-se em 1968, com a ida de um grupo de técnicos brasileiros aos Estados Unidos, onde tiveram conhecimento das  técnicas  de  sensoriamento  remoto aplicadas ao mapeamento. Em período de ditadura militar, marcado pelo desenvolvimentismo, expansão da infraestrutura nacional e uma forte crença no papel da ciência e da tecnologia como instrumentos de integração territorial, conhecer o território significava também ocupá-lo, planejá-lo e explorá-lo. A Amazônia, então vista como um vasto espaço “vazio” e pouco conhecido, tornava-se alvo de um dos mais ambiciosos levantamentos científicos já realizados no país. 

   O projeto, inicialmente chamado de Radam, teve início em 1970 com foco exclusivo no reconhecimento dos recursos naturais da Amazônia. Para isso, empregou-se uma tecnologia inovadora no país à época: o Radar de Visada Lateral (SLAR), instalado em um avião Caravelle que voava a cerca de 11.000 metros de altitude. Capaz de atravessar nuvens e precipitações, esse radar permitia a obtenção de imagens do relevo mesmo em condições climáticas extremas, revolucionando o mapeamento da região. 

   No planejamento inicial, foi previsto o recobrimento de aproximadamente 44.000 km², mas o sucesso da iniciativa levou à ampliação sucessiva do projeto, que passou a abranger toda a Amazônia. Esse processo resultou, mais tarde, na criação do RadamBrasil, que passa a abranger todo o território nacional em 1975.

   Nesse contexto, as imagens obtidas nos sobrevoos, combinadas com os trabalhos de campo, levaram os pesquisadores a produzirem mapas sobre a geologia, paisagens, solos e vegetação, além de avaliações sobre como a terra poderia ser utilizada e quais eram os limites do uso dos recursos naturais. 

   Em campo, os envolvidos coletavam amostras de rochas, minérios e solos. Havia também responsáveis pela classificação da vegetação. Essa mobilização levou a descobertas como a reserva de nióbio (Morro dos Seis Lagos, Amazonas, 1976), estimada em quase 3 bilhões de toneladas e considerada uma das maiores do mundo, afirma a revista FAPESP. 

   Esses estudos se tornaram uma base importante para o planejamento territorial e ainda hoje são referência em propostas de zoneamento ecológico da Amazônia brasileira. Mais tarde, na década de 90, quando oficialmente o Radam chegou ao fim, todos os dados obtidos passaram para órgãos como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e também ao SGB (Serviço Geológico do Brasil).

  Os avanços do Projeto não se limitaram ao mapeamento da Amazônia. No ano de 1972 houve uma necessidade de interpretar imagens obtidas por radar e satélite, que levou o governo brasileiro a criar o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que consolidou o sensoriamento remoto como área estratégica no país e colocou o Brasil dentre os pioneiros em sensoriamento remoto fora da América do Norte. 

Os envolvidos no Projeto

   A trajetória de formação acadêmica e profissional dos envolvidos no Projeto Radam já foi pauta de várias entrevistas e documentários realizados na época.  A diversidade de profissionais era grande, havia biólogos, geógrafos, geólogos e engenheiros. O Radam também contou com a participação de profissionais do Instituto de Geociências da USP, como os Professores Doutores Wilson Teixeira, Miguel Basei, Colombo Celso Gaeta Tassinari e Oswaldo Siga Júnior.

Como era a relação dos povos originários com os pesquisadores do Radam?

   Inserido em um contexto histórico conservador, em que o “novo” era compreendido como sinônimo de avanço econômico e exploração territorial, o contato entre povos indígenas e a sociedade moderna ocorreu, em grande parte, de forma assimétrica e conflituosa. 

“Na Amazônia tivemos contato com muita tribo indígena. Algumas já tinham tido encontro com o homem branco, outras não. Então quando nós sobrevoávamos muito baixo eles flechavam o nosso avião. Tinha uma tribo onde eram todos nus e aí nós pousamos e as índias viam, nos arrancavam todos os acessórios, relógios, óculos, botões das camisas e elas faziam uma roda em volta do helicóptero e queriam que nós contássemos algo, existia um tradutor e elas gargalhavam de rir de qualquer coisa que falássemos. As ocas eram uma beleza, que limpeza e ordem. Tudo tem o seu devido lugar”.

   Esse trecho foi retirado da revista científica FSA, em que um dos pesquisadores do Projeto relata sua experiência direta com os povos originários. A revista retrata o entrevistado como o Sr. Silva, que, aos 84 anos, comentava sobre suas experiências no projeto. Ainda nessa entrevista, o Sr. Silva conta que nem todo contato que obtiveram com os indígenas foi de maneira amistosa:

 “Um dia fomos descer em uma tribo. Nela estavam apenas as mulheres, pois os homens haviam saído para caçar. Quando o helicóptero foi baixar voo os índios se aproximaram e acidentalmente cortaram a cabeça de três índios. Então eles prenderam os técnicos do Radam e queriam matar. Foi um custo para a tribo libertar os nossos 4 técnicos que ficaram presos em uma cabana. Tiveram que levar presentes e mais presentes para os liberar: enxadas, panelas. Além disso, as índias fizeram fila para andar de helicóptero”. 

   No artigo, ele ainda relata que era comum encontrar presença estrangeira na Amazônia, como grupos de missionários estadunidenses, indicando que a presença americana não era só para fins religiosos, mas também de interesse econômico na Amazônia. 

Consequências do Projeto Radam

    O Projeto Radam trouxe diversos benefícios para o desenvolvimento do país e para o conhecimento científico sobre o território brasileiro, que na época era pouco conhecido e explorado. Entretanto, é importante destacar que o projeto não possuía um viés essencialmente acadêmico, mas estava ligado principalmente ao planejamento de desenvolvimento e exploração dos recursos naturais, em acordo com o contexto político e econômico da época.

    Os mapas e levantamentos produzidos passaram a ser utilizados como instrumentos de apoio a políticas de ocupação da Amazônia, incentivando a abertura de estradas, a exploração mineral e a expansão agropecuária.

   O resultado do uso dos dados contribuiu, em muitos casos, para processos intensos de desmatamento, conflitos fundiários e impactos sobre populações indígenas e para comunidades tradicionais, que não foram consideradas como protagonistas no planejamento territorial da época.  

Para além dos impactos ambientais, sociais e econômicos, o Projeto teve que lidar com acidentes e mortes envolvendo seus próprios integrantes. De acordo com o Sr. Silva, entrevistado pela revista,  o número  total  de  vítimas  fatais  durante  os  15  anos  do  RadamBrasil foi  de  40,  entre  técnicos  do  Ministério  e  oficiais  da  Aeronáutica,   por motivos de desastres em barcos, helicópteros, aviões ou acometidos de  malária. 

Término do RadamBrasil

Por fim, no final dos anos 80, o Projeto Radam encerrou suas atividades, resultando em uma ampla coleção de mapas e relatórios sobre geologia, geomorfologia, solos, vegetação e uso da terra em todo o território brasileiro. Ele repassou, então, todos esses dados obtidos para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e na década seguinte para o Serviço Geológico Brasileiro (SGB).

Infelizmente, a Folha de Mica não conseguiu entrevistas com os professores do Instituto de Geociências envolvidos no Projeto, devido ao recesso do final de ano e também pelos professores, em grande maioria, já estarem aposentados, mas aguarda respostas futuras destes profissionais. 

Saiba Mais

Se este conteúdo foi útil para você, avalie-nos! Sua opinião é importantíssima e nos ajuda a melhorar cada vez mais. :)

Basta clicar AQUI

E aproveite para acompanhar a @Folha de Mica no Instagram. Por lá, disponibilizamos um vídeo complementar sobre o Projeto RadamBrasil e publicamos, com frequência, curiosidades e conteúdos sobre o universo das geociências.

Por fim, a Folha de Mica deseja a você, leitor, um Feliz Ano Novo! Agradecemos imensamente todo o apoio ao longo do ano passado, e desejamos boas-vindas a este novo ano, acompanhado de ideias novas para divulgação das geociências! :)

Keep Reading

No posts found