Suponha que você está na estrada, viajando para o interior de São Paulo, e ao longo do percurso, paisagens se sucedem pela janela, até que um vale montanhoso se destaca entre elas e lhe chama a atenção. 

Diante da cena, a reação de imediato é querer registrar aquele momento, seja através de um relato ou de uma fotografia. Mas a pergunta que fica é: o que, de fato, estamos registrando quando tiramos essa foto? Apenas uma paisagem bonita? 

Mais do que uma paisagem bonita, a imagem evidencia registros geológicos acumulados de milhões de anos. É um passo importante para entendermos como funciona a dinâmica do planeta Terra. 

E reconhecer esse valor é essencial para entender o que chamamos de Geoconservação. 

A ideia de começar a conservar sítios geológicos surgiu no século XVII, quando os estudiosos começaram a reconhecer o grande valor científico que as paisagens naturais possuíam. No entanto, o marco fundamental da conservação geológica foi apenas em 1991, onde ocorreu o primeiro simpósio internacional sobre a proteção dos patrimônios geológicos na França, que diversos especialistas se reuniram para discutir acerca desta proteção. 

No Brasil, os levantamentos para essa discussão tiveram início apenas na década de 1990 e hoje há um amplo reconhecimento de que o país possui um patrimônio geológico excepcional. 

Mas afinal, qual é a importância de possuir patrimônios geológicos no país? 

Essa questão foi discutida com a professora Maria da Glória Motta Garcia, do Instituto de Geociências, que expôs o cenário da conservação geológica atual no Brasil, (a entrevista estará disponível no final deste texto). 

De acordo com a Professora, discutir sobre a geoconservação é um processo vital para o conhecimento da história do planeta, pois não basta apenas proteger a fauna e a flora, se não também o todo substrato. As árvores estão sob um solo, que são formados por processos de transporte, intemperismo e erosão de rochas, as quais são imprescindíveis para entender  o funcionamento do nosso planeta há milhões de anos. 

Dessa forma, surge o conceito de Geossítios, que são locais que registram os eventos geológicos que ocorreram no passado e mostram de maneira exemplar como funcionam os processos naturais do nosso planeta. Os geossítios podem ter desde poucos metros quadrados até quilômetros de extensão. 

Em São Paulo, há diversos geossítios que contribuem para o entendimento do passado do nosso planeta. Há mais de 600 milhões de anos, a região que hoje corresponde ao estado de São Paulo fazia parte de um antigo supercontinente, o Gondwana, que unia a América do Sul e a África.

Nesse período, existiam cadeias de montanhas muito mais altas do que as de hoje em dia, formadas pela intensa movimentação das placas tectônicas. Essas massas continentais, as placas tectônicas, carregavam consigo fragmentos de rochas provenientes de diferentes partes do planeta. Com o tempo, devido às altas temperaturas no interior da Terra, muitos desses blocos foram fundidos, originando novas rochas, enquanto outros foram dobrados, empurrados ou esticados pelos esforços tectônicos.

É nesse contexto geológico que surgiram paisagens antigas que, ainda hoje, registram evidências desse passado.

Um exemplo muito importante de um geossítio famoso no estado de São Paulo está relacionado à primeira mineração de ouro que ocorreu no Brasil.

Quando pensamos em ouro, é normal associá-lo ao ciclo do ouro em Minas Gerais, nos séculos XVII e XVIII. No entanto, cerca de 100 anos antes já se tinha a lavra desse metal na região do Jaraguá, e não só lá, mas na região de Guarulhos e em áreas próximas a Itapecerica da Serra e Mogi das Cruzes e também no Vale do Ribeira, em Iporanga.

A exploração do ouro iniciou-se com os bandeirantes e mão de obra escrava indígena, que escavaram túneis e galerias à procura de veios de ouro no morro.

Hoje, o local no Jaraguá, conhecido por “cavas de ouro do Morro doce”, encontra-se em uma situação crítica e, por mais que sejam regiões tomadas pelo Poder Público, a situação atual é deprimente. 

As ocupações urbanas passaram a dominar a região das cavas de ouro e, em apenas quatro décadas, a paisagem vegetal e geológica vem sendo substituída de forma acelerada.

A situação se mostra complexa para uma tentativa de reconstrução do geossítio, pois a área envolve um problema social de falta de moradia para população carente, sendo neste local, uma área de assentamento informal.

Conforme texto sobre esse geossítio no  SIGEP (iniciativa de levantamento e descrição de áreas de interesse ao Patrimônio Geológico, disponível em  https://sigep.eco.br/sitio098/sitio098.pdf), uma das principais cavas antigas encontra-se hoje coberta por vegetação, solo desabado, lixo e restos de demolição.

Além disso, no interior da cava principal, já foi observada, em 1982, a presença de uma galeria subterrânea suavemente inclinada, com cerca de alguns metros de extensão, conectada a um provável shaft (poço vertical) em sua extremidade, que hoje encontra-se soterrada.

Esse registro reforça como essas áreas não apenas sofrem degradação ao longo do tempo, mas também perderam evidências importantes de sua formação e uso, devido a ação antrópica direta.

Hoje, a falta de manutenção do local é crítica, e a ausência de cuidados vem contribuindo para que, pouco a pouco, essa história deixe de existir.

Taludes expostos à ação das intempéries e grande quantidade de material irregularmente depositado. A antiga superfície do terreno foi soterrada. Disponível no artigo: Cavas históricas de ouro do Jaraguá: o que resta para se preservar? Acesse: https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/792db253-9511-4ec2-9cf1-1670e3a58701/content

É comum o descarte de lixo, restos de entulho e outros materiais pela população. Disponível no artigo: Cavas históricas de ouro do Jaraguá: o que resta para se preservar? Acesse: https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/792db253-9511-4ec2-9cf1-1670e3a58701/content

Antiga cava que foi desaparecida em 2007 devido à ampliação da Rodovia Anhangüera. . Disponível no artigo: Cavas históricas de ouro do Jaraguá: o que resta para se preservar? Acesse: https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/792db253-9511-4ec2-9cf1-1670e3a58701/content

Define-se a geodiversidade pelo conjunto de materiais e processos que formaram a Terra. 

E nada melhor do que conhecer essa geodiversidade por meio da educação, e é justamente dessa proposta que surgem os geoparques, como uma forma de valorizar, preservar e aproximar a sociedade do patrimônio geológico.

A rede global de geoparques foi inicialmente fundada em 2004, em reunião realizada na sede da Unesco, em Paris. Dela, participaram os membros do Conselho Científico do Programa Internacional de Geociências. 

De forma geral, os geoparques são áreas delimitadas e reconhecidas pela UNESCO por abrigarem sítios de relevância geológica internacional. No entanto, sua proposta vai muito além da geologia.

Um Geoparque Mundial da UNESCO não se restringe apenas às rochas, fósseis ou paisagens: ele integra dimensões sociais, culturais e ambientais. Seu objetivo é explorar, desenvolver e valorizar as conexões entre o patrimônio geológico e os demais patrimônios: naturais, culturais e até imateriais, presentes no território.

Eles são mais do que espaços de conservação, os geoparques são territórios vivos. Eles buscam reconectar a sociedade com a Terra, mostrando como a história do planeta, construída ao longo de 4,6 bilhões de anos, está diretamente ligada à formação das paisagens, das culturas e dos modos de vida que conhecemos hoje.

Para que um território seja reconhecido como Geoparque Mundial da UNESCO, é necessário submeter um dossiê de candidatura. Esse documento reúne informações detalhadas sobre a área e deve demonstrar que o local está alinhado a princípios fundamentais que orientam a criação e manutenção dos geoparques.

De forma geral, esses princípios envolvem alguns pilares principais. O primeiro é a geoconservação, que busca preservar o patrimônio geológico para as futuras gerações. O segundo diz respeito à educação, promovendo a divulgação do conhecimento geológico e ambiental para o público, além de incentivar a pesquisa científica nas geociências.

Outro aspecto central é o desenvolvimento sustentável, frequentemente impulsionado pelo geoturismo. Nesse contexto, os geoparques fortalecem a relação da população com seu território, estimulam o respeito ao meio ambiente e fomentam a economia local por meio da criação de pequenos negócios, serviços de hospedagem e novas oportunidades de trabalho.

Atualmente, o Brasil conta com 6 parques reconhecidos pela UNESCO.

O primeiro geopark do Brasil surgiu em 2006 e foi o único da América do Sul até meados de 2021. Esse geoparque se chama Araripe e fica em Cariri, no Ceará, em uma região de divisa entre os estados do Ceará, Piauí e Pernambuco. 

Este local está inserido em uma região caracterizada por registros geológicos do período Cretáceo. É uma região que está localizada numa bacia sedimentar, sendo ela, a maior bacia do interior do Nordeste. 

A Bacia de Araripe apresenta um grande potencial para exploração de recursos minerais, que nesta região estão associadas aos calcários laminados, os depósitos de gipsita e de argila e a água mineral.  Além de ser uma das regiões com as maiores jazidas fossilíferas do período Cretáceo do Brasil e do mundo.

Os seguintes geoparques da nossa lista são Caminhos dos Cânions do Sul e Seridó. Ambos foram reconhecidos pela UNESCO no ano de 2022.

O geoparque Cânions do Sul está localizado entre os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nele, há cânions com grandes escarpas que atingem até 1157 metros de altura e extensão total de aproximadamente 250 km, de acordo com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 

Por outro lado, a região Seridó está situada no semiárido nordestino, e possui rochas sedimentares do período cenozóico, cerca de 65,5 milhões de anos atrás. A região também conta com uma grande variedade mineralógica, como o mineral scheelita, mineral do qual se extrai o tungstênio. Além de possuir minerais valiosos, como turmalina, água-marinha, granada e entre muitos outros.  

E então, no ano de 2023 a UNESCO reconheceu mais dois geoparques no Brasil, que estão localizados em uma zona subtropical do Rio Grande do Sul, sendo eles Caçapava e Quarta Colônia. 

Do ponto de vista geológico, o local de Caçapava conta com rochas e minerais do período Arqueano ao Ordoviciano, como  Gnaisses, mármores, xistos diversos, anfibolitos, granitoides, riolitos, andesitos, basaltos e arenitos.

A principal atividade deste geoparque é a geodiversidade, com geossítios icônicos e muito atrativos. 

Observe algumas fotos do local: 

Pedra do Segredo, um dos principais atrativos geoturísticos do Projeto Caçapava Geoparque, paraíso para os escaladores. Observe que a formação lembra a cabeça de um Gorila. Foto: André Borba. Disponível em: https://www.geoparquecostoeselagunas.com/

O amanhecer com nevoeiro nas Pedras das Guaritas. Disponível em:
https://www.geoparquecostoeselagunas.com/

Já o geoparque Quarta Colônia possui um enfoque maior em fósseis do período Triássico, cerca de 245 milhões de anos atrás, sendo o primeiro período da era Mesozóica. 

Por fim, o último da nossa lista é o Geoparque Uberaba – Terra dos Gigantes, em Minas Gerais, reconhecido pela UNESCO em 2024. O destaque deste geoparque está em sua enorme relevância geocientífica, especialmente no campo da Paleontologia. A região abriga importantes geossítios que registram descobertas de fósseis e ainda apresentam grande potencial para novas revelações científicas, o que torna sua geoconservação fundamental.

De acordo com o geólogo Carlos Schobbenhaus, um dos idealizadores do Projeto Geoparques do Serviço Geológico do Brasil (SGB), o diferencial do Geoparque Uberaba está justamente na riqueza e diversidade de fósseis encontrados na área. Esses registros incluem ossos, dentes, ovos e até ninhadas de dinossauros que viveram durante o Cretáceo Superior, entre aproximadamente 80 e 66 milhões de anos atrás.

Entre as descobertas mais impressionantes está o Uberabatitan ribeiroi, considerado o maior dinossauro já encontrado no Brasil e um dos últimos titanossauros do planeta, podendo atingir cerca de 27 metros de comprimento e 14 metros de altura. A região também revelou fósseis de grandes dinossauros carnívoros, como o Abelisaurus comahuensis, além de crocodilomorfos como o Uberabasuchus terrificus.

Parte significativa desses fósseis pode ser observada no Museu dos Dinossauros de Peirópolis, localizado dentro da área do geoparque, que funciona como um importante centro de divulgação científica e educação, aproximando o público do patrimônio paleontológico brasileiro.

Confira abaixo o vídeo da Professora Maria acerca da geoconservação!

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Confira a bibliografia do texto:

Livro: Patrimônio Geológico Paulista: uma viagem no tempo geológico em 50 geossítios, de autoria da Profa. Maria da Glória Motta Garcia.

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